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Cacimba de Dentro aposta em cultura, memória e fé para ampliar o turismo

Festival de Inverno das Serras 2026 em Cacimba de Dentro, no Curimataú paraibano
Ambientação do Festival de Inverno das Serras 2026, em Cacimba de Dentro, uma das cinco cidades que integram o circuito no Curimataú paraibano - Foto: Ale Lontra

Casa de Farinha, museu em prédio centenário, Santuário na zona rural e novos investimentos mostram uma cidade que começa a transformar sua história e seus saberes em experiências para quem visita

O Festival de Inverno das Serras (FIS 2026), que movimenta Cacimba de Dentro até este sábado (15), abriu uma janela para conhecer uma cidade que começa a ampliar seus caminhos no turismo. Enquanto oficinas, teatro, cinema, artes plásticas, música, artesanato e experiências ocupam diferentes espaços, o município do Curimataú paraibano apresenta novos motivos para o visitante voltar depois que o festival terminar: uma Casa de Farinha transformada em experiência, um mercado centenário que virou museu, a fé que leva romeiros até a zona rural e investimentos que chegam a cerca de R$ 13 milhões, entre obras realizadas e previstas em parceria com o Governo do Estado da Paraíba, para melhorar o acesso à região do Santuário.

A passagem do FIS coloca em evidência um movimento que pretende ir além dos dias de festa. Cacimba de Dentro vem recuperando espaços, valorizando manifestações culturais e religiosas e investindo em infraestrutura para ampliar as possibilidades de visitação ao longo do ano.

Durante a programação, o prefeito Pollyano Henrique falou sobre esse novo momento e os projetos que começam a ganhar espaço na estruturação do turismo local.

“Estamos fazendo investimentos fortes na questão turística”, afirmou.

Da mandioca à farinha: um saber que virou experiência

Farinha e beiju fazem parte da mesa nordestina há gerações. Em Cacimba de Dentro, o modo de fazer também passou a integrar a experiência de quem visita a cidade.

A Casa de Farinha, que antes funcionava no centro em uma estrutura de apenas 12 m², foi transferida para a Praça de Eventos, onde hoje ocupa cerca de 500 m² e conta com a infraestrutura de apoio existente no entorno.

O crescimento não ficou restrito ao tamanho. Durante o ano, o espaço recebe estudantes, grupos da melhor idade e outros públicos, aproximando as pessoas de um processo que guarda conhecimentos passados de geração em geração.

“Hoje é um ponto de referência de turismo e de cultura em nosso município”, destacou Pollyano.

Durante o Festival de Inverno das Serras, a vivência “Da Mandioca à Farinha” aproximou o visitante desse saber tradicional, mostrando o caminho percorrido pela mandioca até chegar à farinha.

Mais do que encontrar o produto pronto, quem participa pode acompanhar o processo e conhecer o trabalho e os conhecimentos que existem por trás de algo tão presente no cotidiano nordestino.

A programação também trouxe a proposta de produzir o “maior beiju do mundo”, colocando em evidência outro alimento que atravessa gerações e permanece presente na mesa e na memória afetiva da região.

No período junino, a Casa de Farinha ganha programação especial. A partir de 12 de junho, são 12 dias de atividades turísticas e culturais, com participação de artistas locais e regionais.

Um mercado centenário que agora guarda a memória da cidade

Se a Casa de Farinha mantém vivo um saber passado entre gerações, outro endereço convida a conhecer a história de Cacimba de Dentro.

O prédio centenário onde funcionava o antigo mercado público foi recuperado e transformado no Museu de Arte e Cultura (MAC), dedicado à memória do município.

Mesmo inaugurado há pouco mais de dois meses, o espaço já recebeu mais de 200 visitantes, segundo o prefeito.

“É um prédio centenário que era um mercado público e que hoje se tornou um museu que conta toda a história de Cacimba de Dentro”, explicou.

O imóvel que durante décadas fez parte do cotidiano comercial da população ganhou uma nova função sem perder sua ligação com a cidade. Onde antes circulavam mercadorias e compradores, hoje estão reunidas referências que ajudam a compreender diferentes momentos da trajetória do município.

O MAC também acrescenta um atrativo permanente ao turismo local, especialmente para quem chega fora do calendário de festas e grandes eventos.

Na zona rural, a fé também movimenta visitantes

Para conhecer outra expressão importante de Cacimba de Dentro, é preciso seguir em direção à zona rural.

Na Comunidade Rural de Boa Vista, o Santuário recebe anualmente, em 15 de agosto, a tradicional Festa de Nossa Senhora dos Remédios. Centenas de fiéis e romeiros participam de romarias, missas solenes e celebrações religiosas que fazem da data um dos momentos marcantes do calendário local.

Segundo Pollyano Henrique, a festa recebe visitantes de mais de 20 municípios da Paraíba e também do Rio Grande do Norte, mostrando que a devoção já movimenta pessoas para além das fronteiras de Cacimba de Dentro.

É justamente o acesso a essa região que concentra alguns dos maiores investimentos apresentados para o turismo.

De acordo com o prefeito, uma primeira etapa de pavimentação recebeu mais de R$ 4 milhões e uma nova obra, estimada em aproximadamente R$ 9 milhões, está prevista para ampliar o acesso até o Santuário.

Os investimentos, realizados em parceria com o Governo do Estado da Paraíba, somam cerca de R$ 13 milhões entre a etapa já executada e a nova intervenção prevista, segundo Pollyano.

Além da recuperação de capelas, a melhoria das vias facilita o deslocamento de moradores, romeiros e visitantes e abre possibilidades para outras maneiras de conhecer essa parte do município.

O percurso e a paisagem de Boa Vista também podem ser aproveitados por quem gosta de caminhar ou pedalar, reunindo natureza, contemplação e religiosidade em uma mesma experiência.

“Vai ter um acesso muito mais seguro para todos os turistas e para quem gosta de caminhada, quem gosta de pedal, porque lá é um lugar belíssimo”, afirmou Pollyano.

A fé já leva centenas de pessoas até Boa Vista. Com melhores condições de acesso, o próprio caminho até o Santuário pode ganhar importância, convidando quem chega a observar a paisagem e conhecer outros lugares pelo percurso.

Festival também faz circular produtos e histórias entre os municípios

O Festival de Inverno das Serras 2026 (FIS) não termina quando uma cidade encerra sua programação. O circuito segue viagem e, junto com ele, circulam artistas, artesãos, empreendedores, produtos e histórias.

Nesta edição, o FIS reúne os municípios de Cuité, Dona Inês, Cacimba de Dentro, Barra de Santa Rosa e Araruna. Cuité abriu o circuito, de 30 de julho a 2 de agosto, seguida por Dona Inês, de 6 a 9 de agosto. Cacimba de Dentro recebe a programação de (13) a (15) de agosto. Depois, será a vez de Barra de Santa Rosa, de 20 a 23, e Araruna encerra a edição de 27 a 30 de agosto.

Essa circulação não acontece apenas no calendário. O FIS abre espaço para que artesãos e pequenos empreendedores acompanhem outras etapas, apresentem seus produtos e encontrem novos públicos.

Representantes da Comunidade Quilombola Cruz da Menina no Festival de Inverno das Serras em Cacimba de Dentro
Representantes da Comunidade Quilombola Cruz da Menina, de Dona Inês, apresentam produtos e a moda quilombola durante o Festival de Inverno das Serras, em Cacimba de Dentro – Foto: Ale Lontra

Em Cacimba de Dentro, por exemplo, o pavilhão recebeu empreendedoras de Dona Inês e representantes da Comunidade Quilombola Cruz da Menina, que levaram peças de vestuário, doces, geleias e a moda quilombola em chita.

Quem chegou para conhecer Cacimba de Dentro pôde, portanto, encontrar um pouco de Dona Inês no caminho.

E é justamente aí que o formato de circuito ganha força. Uma peça de vestuário, um doce, uma geleia, uma peça em chita ou uma conversa com quem produz pode despertar a curiosidade por outro município e criar um novo motivo para continuar a viagem pelo Curimataú.

Para quem empreende, significa oportunidade de apresentar e comercializar seus produtos fora de sua cidade. Para o turismo, cria conexões entre os cinco municípios e ajuda o visitante a perceber que cada etapa não precisa existir de forma isolada.

O próprio FIS nasce com essa proposta de integração regional e de interiorização do turismo, reunindo programação cultural, experiências e espaços para gastronomia e artesanato nos municípios participantes.

Para Pollyano, o festival também tem importância por aproximar a própria população da produção cultural.

“Estamos na segunda edição e, junto a isso, trazendo muita cultura, arte, cinema, música boa e, o principal, dando acesso ao povo a ter e poder consumir cultura e arte”, ressaltou.

O que fica quando o festival vai embora?

Um festival consegue movimentar ruas, atrair visitantes e colocar uma cidade em evidência durante alguns dias. Para o turismo, porém, existe uma pergunta que começa justamente quando a programação termina: o que faz alguém querer voltar?

Cacimba de Dentro começa a encontrar essa resposta no que já possui.

Está na mandioca que vira farinha diante do visitante. No beiju preparado a partir de um saber antigo. No mercado centenário que ganhou nova vida como museu. Na memória preservada no MAC. Na fé que todos os anos leva romeiros até a Comunidade Rural de Boa Vista. Na paisagem encontrada pelo caminho e nas pessoas que mantêm vivas as tradições da cidade.

O FIS acrescenta ainda outra possibilidade: fazer com que uma viagem a Cacimba de Dentro desperte a vontade de conhecer Cuité, Dona Inês, Barra de Santa Rosa e Araruna. Afinal, quando produtos, pessoas e histórias começam a circular entre os municípios, o visitante também passa a enxergar o território para além das fronteiras de uma única cidade.

O Festival de Inverno das Serras abre uma porta para conhecer Cacimba de Dentro. Mas são as experiências vividas para além do festival que podem fazer o visitante querer voltar e, quem sabe, seguir viagem para descobrir os outros caminhos do Curimataú.

Alessandra Lontra

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