Casa de Farinha, museu em prédio centenário, Santuário na zona rural e novos investimentos mostram uma cidade que começa a transformar sua história e seus saberes em experiências para quem visita
O Festival de Inverno das Serras (FIS 2026), que movimenta Cacimba de Dentro até este sábado (15), abriu uma janela para conhecer uma cidade que começa a ampliar seus caminhos no turismo. Enquanto oficinas, teatro, cinema, artes plásticas, música, artesanato e experiências ocupam diferentes espaços, o município do Curimataú paraibano apresenta novos motivos para o visitante voltar depois que o festival terminar: uma Casa de Farinha transformada em experiência, um mercado centenário que virou museu, a fé que leva romeiros até a zona rural e investimentos que chegam a cerca de R$ 13 milhões, entre obras realizadas e previstas em parceria com o Governo do Estado da Paraíba, para melhorar o acesso à região do Santuário.
A passagem do FIS coloca em evidência um movimento que pretende ir além dos dias de festa. Cacimba de Dentro vem recuperando espaços, valorizando manifestações culturais e religiosas e investindo em infraestrutura para ampliar as possibilidades de visitação ao longo do ano.
Durante a programação, o prefeito Pollyano Henrique falou sobre esse novo momento e os projetos que começam a ganhar espaço na estruturação do turismo local.
“Estamos fazendo investimentos fortes na questão turística”, afirmou.
Da mandioca à farinha: um saber que virou experiência
Farinha e beiju fazem parte da mesa nordestina há gerações. Em Cacimba de Dentro, o modo de fazer também passou a integrar a experiência de quem visita a cidade.
A Casa de Farinha, que antes funcionava no centro em uma estrutura de apenas 12 m², foi transferida para a Praça de Eventos, onde hoje ocupa cerca de 500 m² e conta com a infraestrutura de apoio existente no entorno.
O crescimento não ficou restrito ao tamanho. Durante o ano, o espaço recebe estudantes, grupos da melhor idade e outros públicos, aproximando as pessoas de um processo que guarda conhecimentos passados de geração em geração.
“Hoje é um ponto de referência de turismo e de cultura em nosso município”, destacou Pollyano.
Durante o Festival de Inverno das Serras, a vivência “Da Mandioca à Farinha” aproximou o visitante desse saber tradicional, mostrando o caminho percorrido pela mandioca até chegar à farinha.
Mais do que encontrar o produto pronto, quem participa pode acompanhar o processo e conhecer o trabalho e os conhecimentos que existem por trás de algo tão presente no cotidiano nordestino.
A programação também trouxe a proposta de produzir o “maior beiju do mundo”, colocando em evidência outro alimento que atravessa gerações e permanece presente na mesa e na memória afetiva da região.
No período junino, a Casa de Farinha ganha programação especial. A partir de 12 de junho, são 12 dias de atividades turísticas e culturais, com participação de artistas locais e regionais.
Um mercado centenário que agora guarda a memória da cidade
Se a Casa de Farinha mantém vivo um saber passado entre gerações, outro endereço convida a conhecer a história de Cacimba de Dentro.
O prédio centenário onde funcionava o antigo mercado público foi recuperado e transformado no Museu de Arte e Cultura (MAC), dedicado à memória do município.
Mesmo inaugurado há pouco mais de dois meses, o espaço já recebeu mais de 200 visitantes, segundo o prefeito.
“É um prédio centenário que era um mercado público e que hoje se tornou um museu que conta toda a história de Cacimba de Dentro”, explicou.
O imóvel que durante décadas fez parte do cotidiano comercial da população ganhou uma nova função sem perder sua ligação com a cidade. Onde antes circulavam mercadorias e compradores, hoje estão reunidas referências que ajudam a compreender diferentes momentos da trajetória do município.
O MAC também acrescenta um atrativo permanente ao turismo local, especialmente para quem chega fora do calendário de festas e grandes eventos.
Na zona rural, a fé também movimenta visitantes
Para conhecer outra expressão importante de Cacimba de Dentro, é preciso seguir em direção à zona rural.
Na Comunidade Rural de Boa Vista, o Santuário recebe anualmente, em 15 de agosto, a tradicional Festa de Nossa Senhora dos Remédios. Centenas de fiéis e romeiros participam de romarias, missas solenes e celebrações religiosas que fazem da data um dos momentos marcantes do calendário local.
Segundo Pollyano Henrique, a festa recebe visitantes de mais de 20 municípios da Paraíba e também do Rio Grande do Norte, mostrando que a devoção já movimenta pessoas para além das fronteiras de Cacimba de Dentro.
É justamente o acesso a essa região que concentra alguns dos maiores investimentos apresentados para o turismo.
De acordo com o prefeito, uma primeira etapa de pavimentação recebeu mais de R$ 4 milhões e uma nova obra, estimada em aproximadamente R$ 9 milhões, está prevista para ampliar o acesso até o Santuário.
Os investimentos, realizados em parceria com o Governo do Estado da Paraíba, somam cerca de R$ 13 milhões entre a etapa já executada e a nova intervenção prevista, segundo Pollyano.
Além da recuperação de capelas, a melhoria das vias facilita o deslocamento de moradores, romeiros e visitantes e abre possibilidades para outras maneiras de conhecer essa parte do município.
O percurso e a paisagem de Boa Vista também podem ser aproveitados por quem gosta de caminhar ou pedalar, reunindo natureza, contemplação e religiosidade em uma mesma experiência.
“Vai ter um acesso muito mais seguro para todos os turistas e para quem gosta de caminhada, quem gosta de pedal, porque lá é um lugar belíssimo”, afirmou Pollyano.
A fé já leva centenas de pessoas até Boa Vista. Com melhores condições de acesso, o próprio caminho até o Santuário pode ganhar importância, convidando quem chega a observar a paisagem e conhecer outros lugares pelo percurso.
Festival também faz circular produtos e histórias entre os municípios
O Festival de Inverno das Serras 2026 (FIS) não termina quando uma cidade encerra sua programação. O circuito segue viagem e, junto com ele, circulam artistas, artesãos, empreendedores, produtos e histórias.
Nesta edição, o FIS reúne os municípios de Cuité, Dona Inês, Cacimba de Dentro, Barra de Santa Rosa e Araruna. Cuité abriu o circuito, de 30 de julho a 2 de agosto, seguida por Dona Inês, de 6 a 9 de agosto. Cacimba de Dentro recebe a programação de (13) a (15) de agosto. Depois, será a vez de Barra de Santa Rosa, de 20 a 23, e Araruna encerra a edição de 27 a 30 de agosto.
Essa circulação não acontece apenas no calendário. O FIS abre espaço para que artesãos e pequenos empreendedores acompanhem outras etapas, apresentem seus produtos e encontrem novos públicos.

Em Cacimba de Dentro, por exemplo, o pavilhão recebeu empreendedoras de Dona Inês e representantes da Comunidade Quilombola Cruz da Menina, que levaram peças de vestuário, doces, geleias e a moda quilombola em chita.
Quem chegou para conhecer Cacimba de Dentro pôde, portanto, encontrar um pouco de Dona Inês no caminho.
E é justamente aí que o formato de circuito ganha força. Uma peça de vestuário, um doce, uma geleia, uma peça em chita ou uma conversa com quem produz pode despertar a curiosidade por outro município e criar um novo motivo para continuar a viagem pelo Curimataú.
Para quem empreende, significa oportunidade de apresentar e comercializar seus produtos fora de sua cidade. Para o turismo, cria conexões entre os cinco municípios e ajuda o visitante a perceber que cada etapa não precisa existir de forma isolada.
O próprio FIS nasce com essa proposta de integração regional e de interiorização do turismo, reunindo programação cultural, experiências e espaços para gastronomia e artesanato nos municípios participantes.
Para Pollyano, o festival também tem importância por aproximar a própria população da produção cultural.
“Estamos na segunda edição e, junto a isso, trazendo muita cultura, arte, cinema, música boa e, o principal, dando acesso ao povo a ter e poder consumir cultura e arte”, ressaltou.
O que fica quando o festival vai embora?
Um festival consegue movimentar ruas, atrair visitantes e colocar uma cidade em evidência durante alguns dias. Para o turismo, porém, existe uma pergunta que começa justamente quando a programação termina: o que faz alguém querer voltar?
Cacimba de Dentro começa a encontrar essa resposta no que já possui.
Está na mandioca que vira farinha diante do visitante. No beiju preparado a partir de um saber antigo. No mercado centenário que ganhou nova vida como museu. Na memória preservada no MAC. Na fé que todos os anos leva romeiros até a Comunidade Rural de Boa Vista. Na paisagem encontrada pelo caminho e nas pessoas que mantêm vivas as tradições da cidade.
O FIS acrescenta ainda outra possibilidade: fazer com que uma viagem a Cacimba de Dentro desperte a vontade de conhecer Cuité, Dona Inês, Barra de Santa Rosa e Araruna. Afinal, quando produtos, pessoas e histórias começam a circular entre os municípios, o visitante também passa a enxergar o território para além das fronteiras de uma única cidade.
O Festival de Inverno das Serras abre uma porta para conhecer Cacimba de Dentro. Mas são as experiências vividas para além do festival que podem fazer o visitante querer voltar e, quem sabe, seguir viagem para descobrir os outros caminhos do Curimataú.
Alessandra Lontra


