O legado do turismo vai além dos números: está nas oportunidades que cria e na capacidade de fazer com que quem vive nos destinos também cresça com a atividade.
Por Alessandra Lontra
O legado do turismo não pode ser medido apenas pelos números. Novos hotéis, mais leitos, aumento do fluxo de visitantes, ocupação, investimentos e empregos gerados são indicadores importantes. Mas há uma pergunta que deveria acompanhar cada novo empreendimento, cada política pública e cada projeto turístico: o que essa atividade realmente deixa para quem vive no lugar?
Voltei a pensar nisso recentemente a partir de uma conversa sobre o Villa do Império, mais novo hotel de Areia, no Brejo paraibano, que abriu em soft opening com uma proposta de hotelaria de luxo.
Ao falar sobre os desafios dessa nova fase, o proprietário destacou a preparação da equipe para oferecer um serviço à altura da proposta do hotel. Praticamente todos são jovens das comunidades e dos bairros da cidade. Para muitos, é a primeira oportunidade de emprego formal.
Foi essa informação, mais do que a abertura de um novo hotel, que me chamou a atenção.
Porque aquela conversa, embora tenha acontecido em Areia, poderia estar acontecendo em muitos outros lugares do Brasil. Um investimento chega, empregos são criados, pessoas precisam ser preparadas e uma atividade econômica começa a produzir efeitos para além das portas do próprio negócio.
A questão é: até onde esses efeitos chegam?
É a partir de Areia, mas olhando para muito além dela, que proponho esta reflexão.
O que fica depois que o turista vai embora?
Durante muito tempo, aprendemos a medir o desempenho do turismo principalmente pelo movimento que ele gera.
Contamos turistas, diárias, ocupação hoteleira, investimentos, empregos e recursos movimentados. São indicadores necessários para compreender a atividade, mas não suficientes para medir o que ela representa para quem mora no lugar.
Há outra conta que também precisa ser feita.
Quantas pessoas foram qualificadas? Pequenos negócios conseguiram participar dessa cadeia? O dinheiro circulou na economia local? Fornecedores cresceram? Alguém descobriu uma profissão ou encontrou ali a oportunidade de mudar sua trajetória?
É nesse ponto que começamos a enxergar o legado do turismo.
E legado não precisa ser uma grande obra ou algo que possa ser inaugurado com placa e fotografia.
Às vezes, ele começa na vida de uma pessoa.
Um emprego pode ser o começo de uma profissão
Há anos repetimos que o turismo gera emprego e renda. É verdade. Mas essa frase, sozinha, já não dá conta de tudo o que a atividade pode representar.
Criar vagas é importante. A qualidade dessas oportunidades também é.
Quando um jovem consegue o primeiro emprego formal em um hotel, restaurante, agência, atrativo ou outro negócio ligado ao turismo, há muito mais acontecendo do que a entrada no mercado de trabalho.
Ele aprende uma profissão, conhece padrões de atendimento, assume responsabilidades, trabalha em equipe, convive com pessoas de outros lugares e começa a enxergar possibilidades que talvez ainda não conhecesse.
Um garçom pode chegar a maître. Uma camareira pode assumir a governança. Um recepcionista pode chegar à gerência. Um auxiliar de cozinha pode se tornar chef. Alguns poderão seguir outros caminhos ou, quem sabe, abrir o próprio negócio.
Não sabemos onde cada trajetória chegará.
Mas sabemos onde algumas delas podem começar.
E o conhecimento adquirido acompanha essas pessoas, mesmo que um dia elas deixem aquele emprego.
Esse é um impacto que dificilmente aparece nas estatísticas, mas que também precisa entrar na conta do legado do turismo.
Estrutura se constrói. Excelência se forma.
Na hotelaria, isso fica muito evidente.
É possível investir em arquitetura, mobiliário, enxoval, gastronomia, paisagismo, tecnologia e conforto. Tudo isso ajuda a definir o padrão de um empreendimento.
Mas serviço não se compra pronto.
Hospitalidade exige formação, acompanhamento e tempo.
O hóspede talvez não saiba quanto custou determinado objeto de decoração ou qual a marca do colchão onde dormiu. Mas dificilmente esquecerá como foi recebido e tratado.
Há ainda algo que nenhum manual consegue ensinar por inteiro: pertencimento.
Quem é do lugar conhece histórias, costumes, referências, sabores, modos de falar e de receber. Isso não substitui técnica nem profissionalismo. Mas, quando encontra uma boa formação, pode dar à hospitalidade algo que não vem pronto em nenhum padrão de atendimento: identidade.
Isso vale para Areia e para qualquer lugar do Brasil.
Profissionalizar não precisa significar padronizar a ponto de apagar o que torna cada lugar diferente.
O que Areia pode nos ensinar
Areia tem uma característica interessante dentro dessa discussão.
Ao longo dos anos, empresários de diferentes portes foram entendendo, cada um no seu tamanho e no seu tempo, que ninguém constrói um destino sozinho.
Essa visão ganhou força na atuação coletiva, inclusive entre os associados da ATURA, a Associação de Turismo Rural e Cultural de Areia. São negócios com histórias, estruturas e capacidades de investimento diferentes.
Naturalmente, são empresas. Competem, têm seus próprios interesses e precisam dar resultado.
Mas existe uma compreensão que considero importante: o desempenho de cada negócio também depende da força do lugar onde ele está.
Um excelente hotel sozinho não faz um grande destino. Um restaurante também não. Nem um engenho, uma agência, um atrativo ou um produtor.
O visitante não vivencia cada negócio como uma ilha. Ele experimenta o conjunto.
É essa percepção, mais do que o caso específico de Areia, que considero interessante levar para outros lugares.
Turismo responsável não se resume à preservação ambiental. Passa também pela maneira como a atividade se relaciona com a economia local, os trabalhadores, os pequenos negócios, a cultura e a população.
Fazer o dinheiro circular
Há uma diferença importante entre o dinheiro passar por um lugar e circular dentro dele.
Quando hotéis, restaurantes, atrativos e outros negócios compram de fornecedores locais, contratam moradores, utilizam serviços da região e estabelecem parcerias, o gasto feito pelo visitante percorre um caminho maior.
Chega ao produtor, ao artesão, ao prestador de serviço, ao comércio, a outras famílias.
É aí que o efeito econômico começa a se espalhar e o legado do turismo ganha outra dimensão: a riqueza gerada pela atividade alcança mais gente.
Um lugar pode receber milhares ou milhões de visitantes e, ainda assim, permitir que boa parte dos recursos saia sem provocar mudanças significativas na vida da população.
Por isso, fluxo turístico não pode ser confundido automaticamente com desenvolvimento.
Movimento é uma coisa.
Desenvolvimento é outra.
Quem cresce quando o turismo cresce?
Essa talvez seja uma das perguntas mais necessárias para gestores públicos, empresários, consultores e todos nós que trabalhamos com turismo.
Quando chegam novos investimentos, as pessoas do lugar estão sendo preparadas para ocupar os postos de trabalho? Os pequenos negócios conseguem entrar nessa cadeia? Produtores, artesãos, guias, condutores, restaurantes, transportadores e outros prestadores de serviços encontram espaço? A cultura local está sendo valorizada ou apenas usada como cenário?
Não se trata de colocar sobre uma empresa a responsabilidade de resolver os problemas sociais de uma cidade.
Um empreendimento precisa ser rentável. Precisa crescer, competir, inovar e dar resultado. Sem empresas saudáveis, não existe atividade turística sustentável no longo prazo.
Mas existe uma diferença entre um negócio simplesmente funcionar em determinado lugar e fazer parte dele.
E essa diferença também ajuda a construir o legado do turismo.
Turismo responsável precisa aparecer na prática
Falamos muito em turismo responsável, sustentabilidade, desenvolvimento local e valorização das comunidades.
São conceitos importantes, mas precisam sair dos discursos e aparecer nas escolhas.
Aparecem quando há contratação e formação de pessoas do lugar, quando produtores e fornecedores locais encontram mercado, quando pequenos negócios conseguem participar da cadeia turística, quando a cultura é respeitada e quando existe diálogo entre empresários, poder público e comunidade.
Nem sempre essas ações rendem grandes anúncios.
Muitas vezes, acontecem silenciosamente.
Mas podem mudar trajetórias.
Foi ali que eu comecei
E volto aos jovens de Areia.
O ponto de partida desta reflexão foi a abertura de um hotel de luxo. Mas, a essa altura, já não estamos falando apenas de um hotel, de luxo ou de Areia.
Estamos falando de gente.
Daqui a alguns anos, talvez ninguém se lembre de quantas horas de treinamento foram necessárias para preparar aquela primeira equipe.
Mas alguns daqueles jovens poderão olhar para trás e dizer:
“Foi ali que eu comecei.”
Essa mesma frase poderá ser dita por alguém no interior do Nordeste, na Amazônia, no Pantanal, em uma comunidade litorânea, numa grande cidade ou em qualquer outro lugar onde o turismo tenha aberto uma porta que antes não existia.
E talvez seja esse o ponto.
Número de visitantes importa. Ocupação hoteleira, investimento, arrecadação e empregos também.
Mas há resultados que não cabem tão facilmente numa planilha.
Estão na pessoa que aprendeu uma profissão. No pequeno negócio que encontrou mercado. No produtor que passou a fornecer para um hotel. No artesão que começou a vender. Na família que passou a viver melhor porque uma oportunidade surgiu.
É aí que o legado do turismo deixa de ser conceito e passa a ser percebido na vida de quem permanece quando o visitante vai embora.
Porque o turista chega, vive sua experiência e segue viagem.
Quem mora ali continua.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quanto o turismo movimentou, mas o que ele foi capaz de mudar para melhor depois que esse movimento aconteceu.
Se a atividade cresce e as pessoas que vivem naquele lugar conseguem crescer junto, começamos a falar de desenvolvimento.
Se gera conhecimento, renda, oportunidades, novos negócios e fortalece a capacidade de uma comunidade construir o próprio futuro, existe algo que permanece.
E talvez seja essa a conta que mais importa.
Porque turismo que não deixa legado é apenas passagem.

Alessandra Lontra é jornalista multimídia especializada em Turismo, mercadóloga e turismóloga provisionada pela ABBTUR. Com mais de 40 anos de atuação estratégica, é referência nacional em inovação no setor, com forte atuação em governança, roteirização, comunicação digital e inteligência artificial aplicada ao turismo. Editora do portal Ale Lontra – Notícias em Movimento para um Turismo Além do Óbvio.


