Espaço instalado no antigo Mercado Público resgata a história do município, valoriza identidades e marca novo momento para o turismo no Curimataú paraibano
Cacimba de Dentro viveu, no último sábado, dia (16), um daqueles momentos que deixam de ser apenas evento e passam a fazer parte da história. Em um prédio que já foi feira, cinema improvisado, difusora e ponto de encontro da comunidade, nasce agora o Museu de Arte e Cultura de Cacimba de Dentro (MAC), um espaço que não apenas preserva o passado, mas o transforma em experiência viva.
Instalado no antigo Mercado Público, construído em 1922 por Pedro Targino da Costa Moreira, conhecido como Yoyô Moreira, o museu representa um novo ciclo para o município. Um ciclo que reconhece a força da memória como base para o desenvolvimento e para a construção da identidade.
A inauguração reuniu moradores, autoridades, artistas, pesquisadores e imprensa em um ambiente marcado por emoção e pertencimento. Entre os presentes, o secretário de Cultura do Estado, Pedro Santos, acompanhou o momento e reforçou a importância de iniciativas que valorizam a cultura e a história dos territórios.
O novo equipamento passa a integrar o projeto Viva Centro, que tem como objetivo revitalizar o núcleo histórico da cidade e transformá-lo em um espaço ativo de convivência, cultura e turismo. Esse movimento ganha ainda mais força com a consolidação de eventos como o Festival de Inverno das Serras, o FIS, que vem ampliando a visibilidade de Cacimba de Dentro no cenário cultural e turístico da Paraíba.

Durante a cerimônia, o prefeito Pollyanno Henrique destacou o impacto da iniciativa. “Essa é a primeira obra do projeto Viva Centro de Cacimba de Dentro. A próxima etapa será a revitalização do calçadão e, depois, do Parque do Açude, formando um grande centro histórico para apresentarmos nossa cidade à Paraíba e ao Brasil”, afirmou.
Ele também ressaltou o papel educativo do espaço. “Foi feito tudo com muito carinho para que as crianças conheçam a história do município através da fotografia, do audiovisual e da arte”, declarou.
O prédio que hoje abriga o museu carrega, em suas paredes, as marcas de diferentes épocas. Durante décadas, foi o coração econômico e social da cidade. Na década de 1950, à noite, transformava-se em cinema improvisado, onde moradores levavam seus próprios bancos para assistir às sessões. Também funcionou como difusora, transmitindo músicas e avisos, além de abrigar serviços públicos ao longo do tempo.

A requalificação respeitou essa trajetória. O arquiteto Anderson Freitas destacou o valor simbólico do projeto. “Foi um grande desafio, uma responsabilidade e também um orgulho. Sou filho da terra e conheço a importância desse lugar para a história do município. Ver esse espaço transformado em museu é motivo de muito orgulho enquanto cacimbense”, disse.
O engenheiro Wamberto Alcântara explicou os desafios técnicos enfrentados. “O prédio não possuía estrutura em concreto armado. Tivemos que reforçar toda a estrutura, implantar sistemas elétrico e hidráulico e reorganizar os espaços sem perder a essência. Era emocionante ver moradores acompanhando a obra e relembrando as histórias vividas aqui”, relatou.
Logo na entrada, um elemento chama atenção e já revela o conceito do espaço. Suspensos no ambiente, móbiles de pássaros criam movimento, leveza e significado. A instalação, intitulada Guardiões do Curimataú, é assinada pelo artista Túlio de Oliveira Fernandes e representa aves emblemáticas da região, formando um verdadeiro ecossistema de identidade.

No centro da composição, está a representação do sol, símbolo de vida, tempo e permanência, irradiando sentido para todo o conjunto e reforçando a ideia de ciclo, pertencimento e continuidade.
Entre as aves, o carcará surge como o Guardião do Curimataú, expressão de força, vigilância e resiliência do povo nordestino. As arribaçãs, também conhecidas como avoantes, aparecem em revoada, representando a comunhão, a coletividade e a hospitalidade do interior. A suindara, a coruja de igreja, carrega o simbolismo do mistério, da fé e do conhecimento, conectando o sagrado à história local. Já a asa branca traduz a migração, a esperança e o desejo de retorno, sentimento profundamente enraizado na identidade nordestina.
Um dos aspectos mais marcantes da instalação é o uso do crochê, especialmente nas penas do carcará e das aves de arribação. O recurso artesanal acrescenta textura, identidade e delicadeza à obra, criando um diálogo entre arte contemporânea e saberes tradicionais.
Mais do que um elemento visual, os móbiles revelam um olhar sensível sobre o turismo, onde natureza, cultura e emoção caminham juntas, convidando o visitante não apenas a observar, mas a sentir o lugar.
A exposição permanente conduz o visitante por uma travessia que antecede a própria formação da cidade, revelando um território que, muito antes das fronteiras atuais, já era habitado por povos indígenas como os Tarairiús e Cariris. Essa presença ancestral permanece viva em locais como o Riacho da Conceição, onde afloramentos rochosos guardam pinturas rupestres bem preservadas, e na comunidade de Lagoa de Onça, que reúne mirantes com vista para o vale do rio Curimataú, a cachoeira de mesmo nome e o sítio arqueológico da Pedra do Letreiro. Nessas paisagens, as gravuras rupestres não são apenas vestígios do passado, mas testemunhos permanentes da relação entre o homem, a natureza e o tempo.
A narrativa avança pelas rotas dos tropeiros, pelas primeiras formas de ocupação e pelos registros que ajudam a compreender a origem do território. Já no século XVIII, documentos oficiais mencionavam a região, como um registro datado de 3 de novembro de 1743, que faz referência a áreas conhecidas como Cacimba da Vargem e Lagoa Salgada, evidenciando que a presença humana no local é muito anterior à formação do município.
Esse vínculo com o território também se revela no próprio nome da cidade, nascido da relação direta com a água. A existência de duas cacimbas levou viajantes a identificar o lugar como “cacimba de dentro”, denominação que se consolidou ao longo do tempo. Fontes como a cacimba do Porão abasteceram a população por muitos anos e ajudaram a firmar essa identidade profundamente ligada ao ambiente natural.
Ao longo do percurso, o visitante também encontra a história econômica do município, marcada pela agricultura e pela feira livre. Cultivos como sisal, algodão, mandioca, milho e feijão garantiam a subsistência das famílias, enquanto o agave se destacou como uma das principais fontes de renda.
A exposição também aborda a formação urbana e social da cidade, construída a partir de encontros, festas, celebrações e relações comunitárias que moldaram o cotidiano da população.

A chegada da energia elétrica, em 1953, marca outro momento de transformação. Inicialmente operado por um motor a vapor, o sistema funcionava em horários limitados, representando a transição entre tradição e modernidade.
A emancipação política, oficializada em 1959, também ganha destaque como marco fundamental na construção da identidade do município.

A historiadora e curadora do MAC Palmira Andrade, responsável pela pesquisa que fundamenta a exposição, destacou a importância desse trabalho. “Me senti lisonjeada por poder compartilhar essa pesquisa com meus conterrâneos. O conhecimento precisa ser expandido e compartilhado. Essa exposição representa apenas uma parte do material que venho construindo sobre a história de Cacimba de Dentro”, afirmou.

O percurso expositivo também resgata símbolos como o antigo cruzeiro que ocupava o espaço da atual praça central e funcionava como referência religiosa e social, sendo ponto de encontro e origem da vida comunitária.
A arquitetura do próprio prédio reforça essa narrativa, com características de transição para o estilo Art Déco e organização em torno de um pátio central, pensado para favorecer iluminação, ventilação e convivência.

Além de preservar a memória, o museu também abre espaço para a arte contemporânea, incorporando ao seu acervo permanente obras dos artistas Ronaldo Ferreira e Clóvis Júnior. Para Clóvis Júnior, essa presença representa um importante avanço para a valorização cultural do município. “É uma alegria saber que moradores e visitantes terão acesso às minhas obras dentro de um espaço que valoriza a cultura local”, afirmou.
Com a abertura do museu, Cacimba de Dentro também consolida um movimento mais amplo de fortalecimento do seu posicionamento turístico. Localizada no interior da Paraíba, a cerca de 170 quilômetros de João Pessoa, a cidade reúne um conjunto de experiências que dialogam com diferentes perfis de visitantes, transitando entre o turismo histórico, religioso, cultural, gastronômico e de natureza.
Esse potencial se revela em espaços que carregam memória e significado, como o Casarão Yoyô Moreira, mantido pela família e aberto à visitação mediante agendamento, além de pontos que conectam fé, paisagem e identidade, como o Cruzeiro de São Sebastião, no Sítio Lagoa D’Água, a Pedra do Mium, onde uma capela dedicada a São Francisco se destaca no topo do lajedo, e o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, no Sítio Boa Vista.
Com olhar voltado para o futuro, o espaço também passa a funcionar como Centro de Atendimento ao Turista, fortalecendo o posicionamento de Cacimba de Dentro como destino de turismo cultural.
Ao transformar um prédio carregado de história em um espaço vivo de memória, arte e experiência, e ao integrar cultura, território e turismo, Cacimba de Dentro reafirma sua identidade e constrói novos caminhos para o futuro.
Alessandra Lontra


