Criada durante a pandemia para apoiar pequenos produtores, a Kassuá conquistou consumidores e empresas e agora lança um certificado que reconhece a contribuição das compras corporativas para a economia e o desenvolvimento das comunidades nordestinas
O que um doce artesanal, um café regional ou uma peça de artesanato podem representar para a economia de uma comunidade? Muito mais do que o valor pago por esses produtos. Foi a partir dessa percepção que a engenheira civil Renata Almeida criou, em João Pessoa, a Kassuá, um negócio que nasceu durante a pandemia para ajudar pequenos produtores a comercializar seus produtos e que agora dá mais um passo ao lançar o Certificado de Impacto Territorial.
A iniciativa reconhece empresas que, ao escolherem presentes produzidos por pequenos empreendedores, artesãos e comunidades tradicionais, contribuem para movimentar cadeias produtivas e gerar oportunidades de trabalho e renda. O reconhecimento considera critérios que vão além do volume financeiro das compras e busca dar visibilidade ao impacto dessas escolhas na economia local.
Da pandemia à criação da Kassuá
Em 2020, Renata retornou ao Brasil depois de um período morando no exterior. Encontrou um cenário preocupante: famílias que dependiam da produção artesanal e da gastronomia regional enfrentavam dificuldades para vender, principalmente por causa das restrições impostas pela pandemia.
Ao lado do marido e do cunhado, decidiu criar voluntariamente um canal de vendas pela internet para ajudar esses produtores. A ideia inicial era oferecer uma vitrine digital, mas logo percebeu que isso não seria suficiente.
Era necessário cuidar de todo o processo comercial, do atendimento ao cliente à entrega, passando pela apresentação dos produtos e, principalmente, pelas histórias de quem os produzia.
A solução surgiu quando Renata pensou em reunir diferentes produtos regionais em embalagens para presente. Assim, doces, geleias, cafés, queijos e peças artesanais passaram a compor kits que carregavam um pouco da identidade nordestina.
O nome Kassuá faz referência ao caçuá, espécie de cesto utilizado no transporte de mercadorias no lombo de animais, especialmente durante o tropeirismo. A inspiração também ajudou a definir a proposta do negócio.
Renata e seus familiares passaram a se reconhecer como os “tropeiros da era digital”, fazendo pela internet um movimento semelhante ao daqueles que, no passado, transportavam mercadorias e ajudavam a circular costumes, notícias e manifestações culturais.
O primeiro passo nas redes sociais aconteceu em dezembro de 2020. Durante quatro anos, a operação permaneceu exclusivamente digital. No final de 2024, com o crescimento da demanda, a Kassuá ganhou uma loja física em João Pessoa, sem abandonar as vendas online.
Hoje, atende consumidores individuais e empresas, recebe pedidos de diferentes regiões do Brasil e mantém a proposta de valorizar produtos de origem regional.
Uma compra que movimenta muitas mãos
Para Renata, um dos maiores desafios foi fazer o mercado compreender que escolher um produto regional significa apoiar muito mais do que o empreendedor responsável por sua fabricação.
Uma geleia artesanal, por exemplo, pode envolver o agricultor familiar que fornece a fruta, a comunidade que produz o doce, a gráfica responsável pelo rótulo e o profissional que realiza a entrega.
Essa relação entre consumo e desenvolvimento local passou a orientar também o trabalho de curadoria da Kassuá.
A gastronomia e o artesanato ganharam protagonismo por representarem duas das expressões mais reconhecidas da identidade cultural de um território: aquilo que seu povo produz com as mãos e os alimentos que fazem parte de sua história.
Ao entrar no mercado corporativo, entretanto, Renata encontrou uma barreira. Muitas empresas estavam habituadas a adquirir presentes padronizados de grandes fornecedores e nem sempre percebiam a importância econômica e social de incluir produtos de pequenos negócios locais.
A estratégia foi começar aos poucos, oferecendo um item regional, depois dois, até ampliar a participação desses produtos nas encomendas.
Mais do que vender, era preciso mostrar quem estava por trás de cada escolha e quais comunidades poderiam ser beneficiadas.
Certificado reconhece impacto das compras corporativas
Depois de anos buscando demonstrar os benefícios das compras de produtos regionais, Renata decidiu desenvolver uma ferramenta que permitisse avaliar e reconhecer a participação das empresas nesse processo.
O resultado foi o Certificado de Impacto Territorial, elaborado ao longo de mais de um ano, com apoio técnico especializado e critérios próprios de avaliação.
A metodologia considera não apenas o valor adquirido, mas também a diversidade de produtos e a abrangência das cadeias produtivas envolvidas.
Na avaliação da empreendedora, uma empresa que compra 300 kits contendo um único produto não necessariamente produz o mesmo tipo de impacto territorial que outra que adquire 100 kits com itens provenientes de cinco comunidades diferentes.
Essa distinção foi fundamental para construir os critérios de reconhecimento.
O certificado está alinhado a seis Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas: erradicação da pobreza (ODS 1), fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), igualdade de gênero (ODS 5), trabalho decente e crescimento econômico (ODS 8), cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11) e consumo e produção responsáveis (ODS 12).
Trata-se de um reconhecimento desenvolvido pela própria Kassuá, a partir de seu modelo de negócio, dos fornecedores e dos critérios de seleção adotados. A iniciativa busca oferecer às empresas informações sobre sua participação nas cadeias produtivas locais, que também podem subsidiar ações e relatórios de sustentabilidade e ESG.
Primeiro reconhecimento e expansão em 2027
O primeiro certificado, referente às compras realizadas em 2025, será concedido a uma empresa de tecnologia de Recife, que mantém uma relação comercial de vários anos com a Kassuá.
A empresa receberá o nível Turmalina, classificação máxima prevista no modelo de reconhecimento. Segundo Renata, a empresa utiliza os kits regionais para presentear parceiros comerciais em diferentes estados brasileiros.
A proposta é ampliar a iniciativa em 2027, alcançando outros clientes corporativos e consolidando o acompanhamento do impacto territorial gerado pelas compras.
Para Renata, o certificado representa a concretização de um trabalho iniciado quando ainda tentava convencer as primeiras empresas a incluir produtos artesanais em suas encomendas.
Mais do que um instrumento comercial, ela considera o reconhecimento uma forma de dar visibilidade a pequenos produtores que, muitas vezes, permanecem desconhecidos dos consumidores finais.
Empreender também é resistir
A trajetória da Kassuá também revela os desafios enfrentados por quem decide empreender. Formada em Engenharia Civil e com experiência em obras e projetos, Renata precisou aprender a lidar com um mercado completamente diferente daquele em que havia construído sua carreira.
Primeiro vieram as dificuldades para conquistar a confiança dos consumidores nas vendas online. Depois, o desafio de sensibilizar empresas sobre o valor dos produtos regionais. Mais recentemente, a abertura da loja física trouxe novas responsabilidades.
Ao longo dessa caminhada, sua percepção sobre o empreendedorismo também mudou.
No início, acreditava que a palavra mais adequada para definir quem empreende era coragem. Com o passar do tempo, passou a falar em resiliência. Hoje, prefere resistência.
A mudança reflete o aprendizado de quem viu outros negócios surgirem e encerrarem suas atividades, muitas vezes depois de seus proprietários investirem todas as economias.
Para quem está começando, Renata deixa um conselho: resistir às primeiras dificuldades e compreender que os desafios não desaparecem com o crescimento da empresa. Ao contrário, aumentam à medida que surgem novas responsabilidades.
Seis anos depois de criar um canal voluntário de vendas para ajudar famílias afetadas pela pandemia, a empreendedora continua apostando na mesma ideia que deu origem à Kassuá: aproximar quem produz de quem consome e mostrar que uma escolha de compra pode fazer diferença na economia de um território.
Alessandra Lontra



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